O que o porta-voz pode aprender com as entrevistas polêmicas de Datena e Pannunzio

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Por entrevista jornalística entende-se: uma conversa entre entrevistador e entrevistado para que fatos sejam esclarecidos a partir de argumentos. É fundamental que haja respeito entre as partes para que o cidadão que ouve, lê ou vê a conversa, também se sinta respeitado. Mas, não foi isso o que aconteceu em duas entrevistas divulgadas ao vivo pela rádio Bandeirantes de São Paulo, em março, conduzidas por telefone pelos jornalistas Fábio Pannunzio e José Luiz Datena, com o vereador paulistano Fernando Holiday e o deputado federal Paulo Maluf, respectivamente.

Na primeira, Pannunzio repercute a denúncia feita pelo portal Buzzfeed. A reportagem mostra que houve caixa 2 na campanha eleitoral do vereador, líder do MBL, o movimento Brasil Livre. A entrevista é tensa desde o início. Ouça o trecho:

Do ponto de vista jornalístico, a investigação é válida e necessária. Para a prática do bom jornalismo, é importante que haja a separação entre a exposição do fato e a demonstração de expectativas frustradas, indignação ou qualquer outro sentimento que possa ser verbalizado de forma agressiva e desrespeitosa.

Quem faz a acusação e a condenação é a justiça. A imprensa mostra a situação, ouve o suspeito, permite que ele se explique e os órgãos do judiciário vão provar OU NÃO o que foi levantado pela imprensa para UMA POSSÍVEL condenação.

Do ponto de vista do entrevistado, a postura do vereador é totalmente destemperada. Ele perde o equilíbrio emocional quando é provocado e, apesar de dizer que tem os argumentos, se deixa levar pelo nervosismo.

DICA: A inteligência emocional é fundamental para se sair bem de uma situação dessas. Se o porta-voz entra na mesma vibração do repórter ele pode até transmitir a ideia de que é culpado. Argumentos consistentes são a matéria prima de alguém que está sendo ‘colocado contra a parede’. Ninguém convence com gritos, autoridade não se conquista aos berros.

A repercussão numa situação dessas, em que o entrevistado mostra despreparo, pode ser muito negativa para a carreira de um político. E isso vale para qualquer porta-voz de outro segmento.

No segundo exemplo, também desastroso, José Luiz Datena faz perguntas recheadas de acusações a Paulo Maluf. O jornalista investe em falas sem dados concretos e reforça que pergunta ‘o que todo mundo diz’.

Perguntar o que todo mundo diz não tem embasamento nenhum. É importante que o jornalista tenha propriedade sobre o que fala. E se o entrevistado não teme, não pode ficar nervoso. Nesse áudio, Maluf apela e a conversa fica insustentável. Fazer comparações entre o veículo para o qual fala e outro é altamente deselegante. A ofensa desperta mais raiva ainda no jornalista e quem perde é o ouvinte.

Nas duas entrevistas, os jornalistas encerraram a conversa de maneira grotesca: batendo o telefone na cara dos entrevistados. Claro que essa não é a postura que se espera da imprensa durante uma entrevista. De qualquer forma, independente da postura do jornalista, o entrevistado tem que se concentrar na própria postura e discurso. É hora de se preparar ainda mais:

DICA 1: A postura mais adequada em entrevistas de crise é manter o equilíbrio, mesmo que seja um grande desafio – isso é treino e começa pela decisão de mudar o hábito do ‘bateu, levou’;

DICA 2: Repetir as respostas com calma, se for necessário, e dizer que se coloca à disposição da imprensa e da justiça para outros esclarecimentos;

DICA 3: Toda entrevista é uma chance de reforçar a postura que o eleitor ‘comprou’ quando deu o voto de confiança ao político. Portanto, use a oportunidade para falar dos seus diferenciais, do que acredita.

Entrevistas polêmicas geram grande repercussão e expõem a imagem do entrevistado perante a opinião pública. Alguns vão dizer que quanto mais barraco, mais audiência. Eu penso que quanto mais barraco, menos possibilidade de evolução como pessoas, eleitores e cidadãos. Cada um de nós leva uma vida para construir a própria reputação e, em alguns segundos, isso pode ser jogado no lixo, se não houver o cuidado com a postura e o discurso.

Espero ter ajudado você com esse estudo de caso. Tem mais dicas no meu canal do Youtube, na Fanpage e também no site treinamentodemidia.com.br

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