Saiba como defender o seu ponto de vista numa entrevista à imprensa

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Evite copiar o comportamento do senador Roberto Requião (veja o vídeo). Se você é porta-voz e é tomado pelo nervosismo quando o jornalista ou apresentador de rádio ou tv faz uma pergunta constrangedora, leia esse texto até o final para entender como defender seu ponto de vista de forma elegante e convincente.

Pela definição do dicionário, ponto de vista é o modo subjetivo de entender um assunto, ou seja, é o seu modo. E você constroi isso com base nas situações que viveu, nas leituras, conversas e pensamentos. O seu ponto de vista pode ser diferente do meu, porque somos pessoas diferentes e tivemos, ao longo da vida, experiências diferentes. E isso não lhe dá o direito, nem a mim, de exigirmos um do outro que nosso ponto de vista seja adotado, assimilado ou praticado. O ponto de vista tem que ser respeitado. Você até pode ficar indignado com o ponto de vista do outro, mas tentar modificá-lo é gasto de energia.

Para tentar conquistar adeptos ao seu ponto de vista você deve usar argumentos. Só opinião deixa o ponto de vista fraco, sem sustentação. Por exemplo: “eu gosto do verão, porque é agradável”. O adjetivo agradável serve para ilustrar meu argumento, mas pode não convencer, porque o que é agradável pra mim pode não ser pra você. Mas, se eu rechear meu ponto de vista com informações como: “no verão, eu posso usar roupas leves, o que me deixa disposta a trabalhar com mais conforto. O verão também costuma lotar as praias e isso aquece a economia”…e por aí vai. Experiências vividas pelo autor dos argumentos e também fatos como a informação sobre o aquecimento da economia dão força ao discurso. Se você tivesse, por exemplo, dados concretos sobre volume de pessoas que vão à praia, em determinada localidade, e o reflexo disso no crescimento da economia, com valores e porcentagens, seria ainda mais convincente. Desta forma, você prova que o verão é melhor.

Para convencer, use argumentos consistentes.

O ponto de vista traz sempre uma comparação. Se eu defendo o verão, provavelmente estou atacando o inverno. Mas, perceba que não preciso falar mal do inverno para convencer que o verão é melhor. Posso não traçar esse paralelo e só defender o verão, usando todos os diferenciais que ele tem em relação às outras estações do ano.

Você pode usar esse exemplo e adaptar para qualquer outro tema em debate e argumentar de forma convincente seus pontos de vista em entrevistas à imprensa, por exemplo. Assustado com a pergunta do repórter que inclui uma afirmação, muitas vezes irreal, o entrevistado apela, ataca e é deselegante, o que pode sugerir seu envolvimento com a situação que o deixou nervoso. O exemplo da entrevista do senador Roberto Requião ao programa Timeline da Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, RS, no último dia 25/04/2017, mostra que a postura intolerante dá mais destaque ao entrevistado do que o assunto em discussão.

Veja o vídeo:

Bater o telefone não é só um sinal de falta de respeito com o eleitor, ouvinte da entrevista*, mas revela o perfil do entrevistado avesso a discussões com quem discorda dele. Nesse caso específico também mostra que faltaram argumentos. Se há uma explicação convincente, por que o abrupto encerramento da conversa? Quem não deve, não teme; essa é a regra que garante tranquilidade ao entrevistado que tem práticas corretas.

Como se trata de uma pessoa pública, o senador deve sim dar satisfações ao público sobre sua visita ao Uruguai. Se o compromisso é pessoal, é só dizer que está cuidando de um assunto de família ou coisa assim para não precisar dar detalhes particulares. Por causa do escândalo da Operação Carne Fraca, a visita do político ao país vizinho, conhecido produtor de gado, a falta de resposta deixou dúvidas. E quando a comunicação não é clara ou ausente sobram especulações. Detalhe: o senador é jornalista.

A ironia como estratégia

A ironia é uma estratégia para tentar convencer, mas normalmente essa forma de expressão falta com o respeito e tem a intenção de menosprezar a capacidade de compreensão do outro.

É preciso considerar que todo argumento está baseado nas crenças de quem fala. E quando um de nós acredita em algo com muita força, não tem debate que convença o contrário. O importante é entrar numa conversa para acrescentar conteúdo e trocar conhecimento, mas nunca com o objetivo de mudar a ideia do outro.

Outro recurso que também é muito usado na tentativa de convencer é o rótulo. Se o meu interlocutor prefere o inverno e eu usar um rótulo pra desconsiderá-lo, posso dizer que ele é uma pessoa fria e insensível e por isso não tem afeição pelo calor do verão. É claro que não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas a associação entre pessoa fria e inverno serviria para, digamos, desestabilizá-lo nos seus argumentos em favor da estação gelada.

No calor da discussão, muita gente se esquece da regra do respeito e apela. Ironia, rótulos e até palavras de baixo calão, os famosos palavrões, entram no roteiro que quase sempre termina mal. Além da briga, outro aspecto negativo que fica em evidência numa discussão assim é a incapacidade de argumentar de forma inteligente, usando elementos do discurso que podem valorizar o falante e o debate.

Não deixe de dizer o que pensa e contribuir para o debate, mas prefira argumentos consistentes para não cair no papel pouco valioso de fanático, ferrenho ou apaixonado cego. Quem não amplia a consciência para se informar sobre os vários aspectos de qualquer tema e ouvir outros pontos de vista, deixa de praticar a flexibilidade para revelar comportamento intolerante, vício que dificulta a comunicação entre as pessoas.

* Um equívoco muito comum dos entrevistados é achar que responde ao jornalista ou apresentador durante a entrevista. O profissional da comunicação faz o papel de porta-voz da população, ou seja, ele representa o ouvinte, leitor, internauta ou telespectador, por isso qualquer forma de deselegância ou falta de respeito é dirigida ao público do veículo de imprensa e não ao profissional do jornalismo. No caso dos políticos, o público do veículo pode ser o eleitor. No caso do executivo, empresário ou profissional liberal, o público é o cliente/consumidor.

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